segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

6- Holiday



If we took a holiday
Took some time to celebrate
Just one day out of life
It would be, it would be so nice
It´s time for the good times
Forget about the bad times, oh yeah



Layla passou o caminho inteiro resmungando sobre sua ressaca. Sinceramente, se fosse eu que tivesse passado a noite com aquele NATE DE GOSSIP GIRL, obviamente estaria dando pulinhos de alegria, mesmo sem me lembrar de nada. O que importava agora, não é? Já havia passado. Resolvi não discutir com ela para evitar problemas. Queria aproveitar meu dia. Porque a noite havia sido MA-RA-VI-LHO-SA e eu recordava de cada detalhe.
- Ok, Lucy. – Disse fazendo pouco caso sobre a milésima reclamação de Layla.
Ela finalmente riu. Sabia que a Lucy, amiguinha do Charlie Brown, era fofa, apesar de resmungona. Era exatamente como minha amiga. Então aquilo soou como um elogio.
Resolvemos conhecer as famosas pirâmides mexicanas. Primeiro nos perdemos pela cidade e eu já estava mal humorada ao lado da emburrada. Deveríamos seguir para noroeste, para chegar lá, era num outro município. Pedimos informações a alguns mexicanos estranhos que nos indicaram caminhos diversos e errôneos. Enfim, nunca vá passear pelo México sem um mapa e um espanhol decente.
Paramos numa loja de conveniência e compramos chicletes, balinhas, jujubas, fandangos, doritos, refrigerantes, chocolates, todo tipo de junk food, algumas garrafinhas de água e um mapa que indicava perfeitamente como chegar ao tal município.
- Comprou apenas a loja toda, Alice? – Lah ironicamente me perguntou enquanto eu saía da pequena loja no posto de gasolina.
- Comprei. – Eu sorri jogando as sacolas em cima dela. Ela remexeu as compras.
- Uhu! Doritos! - Comemorou como uma criança feliz.
Partimos numa estrada alongada e praticamente vazia, com algumas montanhas, pouca civilização e alguns postos para abastecer entre as pistas. Era uma cena típica de Road Movie. Eu me enchia de uns tacos apimentados que vinham em saquinho e Layla mexia compulsivamente no radio do carro, devorando um saco de Doritos.
- Devíamos ter comprado bebidas alcoólicas, né? - Puxei um assunto.
-Não, nem pensar, Ali, não são nem três da tarde ainda! Além do mais você ta dirigindo.
- É. – Fiz cara de poucos amigos.
Layla mudou para uma radio que tocava uma antiga musica da Alanis Morissette, da época roqueira dela.
- Deixa essa! – Ri. – Essa musica é muito boa, Lah.
- Ééé. – Ela se empolgou.
- And every time you speak her name Does she know how you told me You'd hold me until you died Till you died, but you're still alive! - Cantamos juntas.
- And are you thinking of me when you FUCK her? – Caímos no riso.
O dia estava lindo e o céu mexicano parecia mais azul. Eu me sentia realmente num Road movie com aquela musica tocando e nós duas gritando a letra como se quiséssemos ferir todos aqueles caras com os quais já havíamos nos decepcionado. GIRL POWER!
Finalmente chegamos às construções de pedra. Havia dúzias de turistas e um sol escaldante sobre nossas cabeças. Apesar da paisagem ser linda e tudo, não havia muita diversão para nós duas por lá, além de tirar milhões de fotos.
Nos juntamos a um grupo de gringos e ouvimos explicações históricas da guia de turismo. Sempre era interessante aprender a parte cultural do local também, além de levar pra cama os turistas gatos. Ainda estávamos em êxtase depois da ultima noite e ainda não era hora de flertar com aqueles ali. (safadas.com) Bom, como diria Layla, os mexicanos eram 8 ou 80, muito lindos ou muito feios. Mas eu sabia que não ia sair do México sem conhecer um mexicano Mcextrasalty.
Fomos embora e acabamos parando num bar, já eram seis da tarde e Lah acabou cedendo. Antes que algum daqueles cowboys bigodudos e suados batesse em nossas bundas, ao desfilarmos pelo salãozinho, nos sentamos numa mesa próxima à saída. Era daqueles obscuros e eu já estava com medo daquele lugar.
Bebemos e bebemos margaritas e variados. Os cowboys não paravam de nos olhar, especialmente quando falávamos empolgadas sobre algo em português.
- Vamos fazer uma tatuagem, Lah?? – Parece que a minha razão estava indo embora.
- Alice? Como assim? Onde? – Ela pareceu surpresa mas tentada.
- Não sei, algum lugar. Vamos? Vamos?
- Ok, vamos. – Ela concluiu, rindo sem motivo.
Agíamos sempre assim, sem pensar muito. Uma sempre ia na onda da outra e as loucuras estavam formadas. Saímos do bar e chegamos próximo ao nosso carro.
- Layla, acho melhor você dirigir. – Me encostei na lataria antiga e quente, já estava meio zonza.
- Quantas margaritas foram mesmo, Ali?
- Sei lá. Hm, acho que nem vou querer entrar no carro com você no volante. – Rimos descontroladamente fazendo as pessoas que passavam olharem para nós.
Andamos em direção ao hotel. Estávamos numa avenida movimentada, cheia de placas e coisas, tipo hotéis, lojas, restaurantes e pessoas, seria impossível nos perdermos por ali.
- Amanhã a gente pega esse carro aqui. – Layla ainda conseguiu raciocinar.
- Imagina se a gente vivesse num musical? – Viajando, falei.
- É, agora seria uma música de decadência e surgiriam dançarinos coadjuvantes fazendo backin’ vocal atrás de nós. – Ela ensaiou uns passinhos.
- E faríamos uma dança tipo as da Amy, quase caindo. Decadência chamou meu nome.
- Nosso. E sempre chama. – Ela passou uma das mãos em meu cabelo caído no rosto, como se quisesse me consolar, de uma forma irônica.
-Olha! Um estúdio de tatuagem, Lah! É o destino! – Apontei e apertei Layla pelos ombros, chacoalhando-a.
Tinha uma placa muito velha, num meio daquela poluição visual toda. Ainda não sei como entramos naquele lugar.
- É!! Vamos então!! Pera... – Ela parou de andar. – O que vamos tatuar?
- Boa pergunta.
- Que tal pimentas? – Ela sorriu maliciosamente.
- Safaaadinha. Ok, pimentas servem. – Partimos em direção ao estúdio-sujo-de-tatuagem.
Entramos por uma porta de madeira. Um cara muito estranho veio nos atender, com um espanhol enrolado e um bigode grande. Os mexicanos tem problemas com bigodes. Virei para Layla:
- Como é “pimenta” em espanhol?
- Não faço idéia. – Ela arregalou seus olhões.
Ficamos na salinha de espera, onde havia duas poltronas e algumas pessoas sentadas, a maioria mal encaradas e com os corpos cobertos de tatuagens. Com exceção de uma menina loira que aparentemente acompanhava um rapaz. O tatuador veio com varias revistas bregas de tatuagem e nós duas folheamos em busca de pimentas sexys.
- Olha essa aqui. – Layla apontou para um desenho de uma pimentinha vermelha.
- Cúl. – Sorri.
Se estivesse sóbria, com certeza, teria medo de ser tatuada por aquele cara. Entramos no “consultório” que mais parecia o do Sweeney Todd. Por algum motivo, não parávamos de rir sem razão.
- Onde vocês vão tatuar? – O cara perguntou com sua voz de ogro aproximando de nós com um estêncil e luvas pretas.
- “Next to my pie” – Eu disse logo aos risos, mas só Layla entendeu e gargalhou.
Apontei para a região do abdômen, levantando minha blusa e abaixando um pouco o short. O cara me olhou estranhamente. Sentei-me na poltrona do Sweeney e olhei bem para ele.
- Vai doer? – Disse fazendo charminho, piscando um dos olhos e fazendo Layla se despencar da cadeira de tanto rir.
O homem não entendeu e eu logo rebati com um “perdón”, para evitar constrangimentos.
Senti a agulha entrar na minha pele e uma sobriedade bateu sobre mim, como se eu já soubesse que ia me arrepender daquele desenho.
- A próxima é você, Lah. Best Friends 4ever tem tattoos iguais. – Debochei, fazendo um coraçãozinho com as mãos no ar enquanto o ogro tirava proveito de mim.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

5 - You keep me hangin' on


Set me free, why don't cha babe Get out my life, why don't cha babe 'Cause you don't really love me You just keep me hangin' on You don't really need me But you keep me hangin' on

Eu estava em um pequeno barco no meio do mar, tudo parecia deserto ao meu redor, daquele jeito que você só vê em filmes ou propagandas de perfume assim como o cara que me beijava. Mas a luz do sol começou a ficar forte demais, tão forte que acabei acordando. Infelizmente. Comecei a me arrepender de abrir os olhos no mesmo momento em que o fiz, pois o sol me deixou parcialmente cega e minha cabeça doía como se eu tivesse sofrido um acidente de carro ou algo assim. Fechei os olhos novamente. Fora esse fato completamente novo para mim, que nunca tinha tido uma ressaca na vida, independente do quanto bebesse, eu simplesmente não conseguia me lembrar de nada.
Só um turbilhão de imagens desconexas que não faziam menor sentido. Lembro de musicas do Dean Martin, de jogar sinuca com a Ali e de dois caras completamente deliciosos, mas não entendia como todas essas cenas se encaixavam. Me mexi um pouco na cama e levei um susto, porque minha mão passou acidentalmente por algo que estava distante de ser a colcha da cama, pra falar a verdade, tava mais para um corpo gostoso. Abri os olhos novamente e quase gritei ao ver um dos caras da noite anterior dormindo ao meu lado. AI. MEU. DEUS.
Me levantei da cama o mais rápido que pude e mais uma vez me arrependi amargamente por ter esse tipo de idéia, porque fiquei tão tonta que tive que me segurar na mesa de cabeceira pra não cair. Estava mais do que na cara que eu realmente tinha aproveitado a primeira noite no México, não só porque as minhas roupas estavam espalhadas pelo chão, mas porque o quarto onde eu estava não era o que eu havia feito check in com a Alice e a pessoa deitada na cama DEFINITIVAMENTE não era a Alice.
Vesti a minha roupa o mais rápido que pude, mas antes que eu pudesse sair correndo do quarto mais rápido do que você conseguiria pronunciar “Ressaca”, meu celular começou a tocar. PUTAPORRAQUEPARIU. Às vezes eu acho que as bolsas tem um bolso invisível, que só é usado quando você precisa achar algo dentro delas e você está desesperada, porém, essas coisas só aparecem depois que você já acordou a pessoa desconhecida deitada na sua cama. Tudo bem que esse fato me fez soltar um suspiro aliviado por ele não estar morto (o quê? Podia acontecer, ora), mas me fez desejar estar morta. Já que 1) eu era incapaz de lembrar o nome dele e 2) eu devia estar mais vermelha que as minhas unhas.
A reação mais brilhante que tive foi, claro, ir até o banheiro pra  atender o telefone, adiando assim a conversa com o estranho-gostosão-demais.
- Alô – disse, me assustando com a minha própria voz.
- ONDE VOCÊ ESTÁ? – a voz da Alice gritou ao meu ouvido.
- Fala baixo, eu estou com dor de cabeça, caralho – sussurrei.
- Não acredito que você, finalmente, teve uma ressaca – ela parece rir agora.
- Isso é realmente relevante? – cortei-a.
- Não, na verdade o importante é saber onde você se meteu – ela insistiu.
- Você acha que se eu soubesse eu não já teria te dito, ou me mandado daqui? – respondi secamente.
- Tudo bem, descubra e me encontre no salão do hotel – ela falou.
- Espera – falei antes que ela desligasse na minha cara.
- O quê? – ela responde mal humorada.
- O que aconteceu ontem? – pergunto um pouco envergonhada e ela ri.
- Você acordou no quarto do Russel então – ela supõe.
- É esse o nome dele? – pergunto confusa e ela ri ainda mais.
- Você ta mais perto do que eu imaginava, me encontra no salão em dez minutos e eu te conto o que eu lembro – pelo ar dela eu tinha certeza que ela também não lembrava de muita coisa.
Respirei fundo e lavei meu rosto antes de sair pela porta do banheiro. Não pude esconder um sorriso ao dar de cara com aquele estranho agora quase vestido. Ele piscou aqueles maravilhosos olhos claros para mim, eu podia não lembrar como eu tinha chegado ali, mas com certeza sabia porque tinha chegado ali e não foi por causa da bebida.
- Bom dia – ele disse em inglês, com um sotaque forte.
- Bom dia, não queria te acordar, mas já estou de saída – falei séria.
Cara de pau? Imagina.
- Você já vai? – ele perguntou com um sorriso malicioso.
Tentei disfarçar um arrepio que passou pelo meu corpo e manter a compostura.
- Já, eu preciso me encontrar com a Alice – respondi.
- Nos vemos depois – ele falou quando eu já me aproximava da porta.
- É – in your dreams, completei em pensamento e entrei no elevador.
Depois de arrumar um pouco o cabelo e a roupa no elevador, eu amaldiçoei mentalmente a Alice por me fazer estar passando pela caminhada da vergonha, aquela onde você aparece em publico com a roupa que estava na noite anterior, com cara de quem não dormiu em casa e ressaca. Quando ela me viu escondeu um sorriso e veio falar comigo.
- Você está com uma cara ótima, amiga – ela debochou.
- Vai se ferrar – rebati. – Dá pra voltar pro quarto agora, eu não quero ficar andando pelo salão do hotel com a roupa que estava ontem.
- Ta com vergonha é? – ela provocou.
- Eu vou te deixar sozinha – falei, voltando para o elevador.
- Tudo bem, eu vou com você, mas só se você prometer que vai dá uma volta comigo, tomar um café – ela insistiu.
- Ta certo, mas me deixa pelo menos tomar um banho e lavar a vergonha do meu corpo, depois nós conversamos – conclui, fazendo-a rir.
Quarenta minutos e umas três trocas de roupa depois, finalmente conseguimos sair do hotel com o pretexto de tomar um café, mas eu não queria porcaria de café nenhum, eu queria mesmo era saber o que tinha acontecido ontem e porque a Alice tinha se safado sem a caminhada da vergonha.
- Será que eu posso saber o que aconteceu ontem? – perguntei de cara, assim que sentamos à mesa.
- Até onde você lembra? – ela perguntou com um sorriso.
- Bom, até a hora que nós fomos jogar sinuca, depois eu só lembro de umas musicas do Dean Martin tocando e de conversar vagamente com o “Russel” – respondi fazendo aspas no ar.
- Tudo bem, eu admito que eu não lembro muito depois disso, mas ao contrário de você eu acordei no nosso quarto – ela fala rindo.
- Eca, me diga que não foi na minha cama – completo, horrorizada.
- Não, chatinha. De qualquer forma, o Gibson pareceu mais sensato e não quis me matar de vergonha, mas ele deixou um bilhete falando que a noite foi ótima – ela riu me entregando o pedaço de papel amassado.
- Que pena, nem foi na mesa de sinuca – falei rindo e ela me deu um tapa no ombro.
- Idiota – ela diz séria, mas eu sei que ela está fazendo um esforço descomunal para não rir.
- Tudo bem, não precisa fica triste, quem sabe na próxima – provoco-a.
- Você sabe que não está em vantagem aqui, senhora eu-não-sei-com-quem-dormi – ela rebate rindo e acabo rindo junto.
- Eu não imaginava que íamos começar tão bem a viagem – um sorriso estampou o meu rosto ao falar isso.
- Verdade e ela está só começando – ela falou animada. – Espera, você ainda não falou como saiu do quarto do Russel despercebida.
- Quem disse a você que eu saí despercebida? – rebati, rindo.
- Como foi afinal? – ela perguntou curiosa.
- Ora, na cara de pau, falei que tinha que ir e pronto – disse e nós rimos.
- Meu Deus, você se supera a cada dia – ela riu.
- O que você esperava que eu fizesse? Espancasse a camareira, vestisse a roupa dela e saísse dizendo que já tinha trocado as toalhas? Hm, acho que não – respondo sarcástica.
- Daria uma ótima novela mexicana, ta mesmo entrando no clima, hein? – ela debochou.
- Com certeza – digo bebendo o ultimo gole do meu café.
- Vamos, eu quero dá uma volta na cidade antes de decidirmos nossa próxima aventura – ela fala me arrastando.
- Ta, agora dá pra me soltar? – resmungo.
- Nossa, mas você ta ranzinza demais pra alguém que teve uma noite maravilhosa – ela debocha.
- Quando eu tiver uma noite fantástica E lembrar dela, aí eu vou acordar animada – rebato fazendo-a rir de novo antes de sairmos pelas ruas no “nosso” carro.


domingo, 15 de novembro de 2009

4 - Girls just wanna have fun



I come home in the morning light
My mother says when you gonna live your life right
Oh mother dear we're not the fortunate ones
And girls they wanna have fun
Oh girls just wanna have fun

Após alugar o carro, um conversível desses antigos, de cor clara, saímos pela Cidade do México. Era maravilhosa, cheia, populosa, com pessoas e belas paisagens passando por todos os lados. Hospedamo-nos num pequeno hotel, simples, que satisfazia nossas necessidades. Além disso, financeiramente, podíamos arcar com ele. Afinal, estávamos apenas no início daquela longa e louca jornada.
- Cara, tem uma salinha de jogos! – Gritei entrando em nosso quarto.
- Sério? Uau. – Layla me respondeu sarcasticamente, enquanto arrumava alguns de seus pertences no pequeno armário de madeira.
- Sério, Lah, vamos jogar e beber? Nossa primeira noite no MÉ-XI-CO, temos que comemorar! – fiz uma dança animada com castanholas imaginárias.
- Vamos, vamos! – Ela finalmente se animou. – Daqui a quinze minutos é hora de descer para o jantar.
- Ah, foi porque eu enfatizei o beber, não foi? – Dei um tapa carinhoso em suas costas.
- Vou tomar um banho. – Ela saiu sorrindo.
Liguei a televisão para ver a programação. Eram só pessoas falando com aquela lingüinha presa, tipicamente mexicana, diferente dos espanhóis, argentinos e derivados. Como não me interessei por nada, resolvi ligar para a recepção:
- Hola! – Segurei o riso.
- Hola, senhorita. – O mexicano do outro lado achava que estava falando com uma hospede normal.
- Sim, que o tem na programação de hoje? – Enrolei a língua e saquei de um espanhol muito mal falado, que foi entendido.
- Hoje teremos um jantar com a presença de “Los MARIACHIS” do hotel, senhora. Um romântico e famosíssimo espetáculo mexicano. Perfeito para a senhorita e seu “novio”.
- Ah. – bufei. – Eu não tenho “novio”! – Reclamei, quase completando com “mexicano idiota”.
- Tem muitos rapazes solteiros em nossos jantares, senhorita. Parece que você veio para o lugar certo, senhorita.
- Ah, agora você ta falando a minha língua. Mas eles são “guapos” mesmo? – Ri pois Layla saía do banheiro, com uma toalha amarrada na cabeça, com uma das mãos sobre a boca, escondendo o riso por minha fala.
- Sí, Sí, senhorita. – O recepcionista respondeu. Layla continuou me fitando.
- Então é isso. “Muchas Gracias”, senhor. – Desliguei o telefone; Ela caiu na cama, rindo de minha conversa.
- No mínimo ele vai achar que você é uma tarada! – Ela disse em meio às gargalhadas.
- Ou não. Ele quem começou! – Protestei, sem achar graça. – Tá, vou tomar meu banho.
- Vou me comportar, diferente de você.
- Sarcástica você, Lay, chata.
Descemos para o jantar. Era uma sala pequena, porém aconchegante e parecia que todos os hóspedes já estavam presentes. No fundo, três homens, um com um violão, vestidos da mesma maneira, de vermelho e com grandes bigodes negros, tocavam músicas que mais me faziam rir que me sentir apaixonada. Cutuquei Layla com meu cotovelo e trocamos olhares os quais significavam: “vergonha alheia”. Sorri quando o recepcionista, que – pasme! - era “guapo”, veio falar conosco.
- Hola! – Ele disse sorridente. Provavelmente com décimas segundas intenções.
- Hola! – Respondemos em coro, com sorrisos nitidamente falsos.
- Sintam-se em casa. – Ele abriu espaço para passarmos.
Quarenta minutos, cem tequilas e duzentas risadas graças aos Mariachis depois, já havíamos jantado uma combinação de diversas iguarias mexicanas, tais como tacos e chilli, trazidos especialmente pelo nosso recepcionista, que se revelou um atencioso maitre. Atencioso até demais, como diria Layla.
- Sério, você é a Medusa! – Layla começou, já com voz de bêbada.
- Não, não sou não. – Falei seriamente, apesar da voz tremula.
- É sim! Os caras te olham e viram pedra! – Agradeci a Deus por estarmos num país desconhecido onde ninguém entendia nossas falas.
- Quero seu mel, Alice. – Disse piscando para mim.
- Não tenho mel nenhum. – Continuei aparentemente séria, mesmo que tentasse esconder um risinho das loucuras de minha companheira de viagens. Se sóbria sua criatividade já era aguçada, bêbada então... Admito, já estava meio louca por causa de todas aquelas bebidas.
– Não vou comentar... – Encerrando o assunto e rindo sem motivo. Acompanhei minha amiga, achando graça de algo que nem eu mesma sabia o que era.
Na outra parte do salão, havia dois homens sentados numa mesa, bebendo e conversando cordialmente, como amigos normais. Era notável a diferença entre mim e Layla e eles. Nós, quase espalhafatosas, irradiando brilho e chamando atenção da maioria de sexo oposto presente. Eles deviam falar sobre algum assunto banal, entre goles de cerveja enquanto seus olhos passavam por todo o espaço, talvez em busca de uma bela mexicana para uma diversão à toa.
Certa hora, desliguei-me das bobeiras de minha mesa e viajei pelas outras do restaurante. Meu olhar se cruzou com o de um dos tais homens, este, nitidamente mais velho que o outro, possuía olhos lindamente esverdeados. Na verdade, não sei exatamente a cor. Talvez eu tenha idealizado e a imagem ficou em minha cabeça. Talvez sua pele morena, queimada de sol fizesse com que seus olhos ficassem mais claros e hipnotizantes.
- Lá vai você envenenar mais um... – De repente, interrompendo meu contato visual, Layla disse com tom de bêbada resmungona.
- Que? Ele quem está olhando pra cá. – Retruquei.
- Porque você não para de olhar pra lá, fica chamando. – Disse ela, entre goles de seja lá qual for a milésima bebida do dia.
- Ok, vou parar. Mas dá uma olhada no amiguinho dele... Seu estilo, não?
- Hum... – Ela virou-se com charme para o lado oposto do salão de jantar. O rapaz, também bronzeado, diferente do moreno mais velho, tinha cabelos dourados e olhos verdadeiramente claros “não era de se jogar fora”, como foi constatado por Lah.
- Safada! –Gritei e chutei seu pé com delicadeza, por baixo da mesa. Ela riu.
- You won’t admit you love me. And so how am I ever to know? You only tell me… - Layla cantarolou com uma voz mais grave que a normal, se é que era possível ela engrossar sua voz fininha, quase de criança.

- Quizas, quizas, quizas - Completamos juntas. Ao final das risadas (para variar), eu disse:
- Sempre, né? Para mudar de assunto você canta essa música. Você é figura, Lah. – Minha amiga bêbada caiu na gargalhada e logo mudou sua feição:
- Não sou não. – Disse com ar de desanimada, típico de bêbados.
- Você é sim, não discute comigo, sua bipolar.
Os olhos do homem de cabelos pretos, levemente compridos, ainda me perseguiam. De alguma forma, ele me atraía e não conseguia ficar sem ao menos olhar disfarçadamente para a mesa dos amigos estrangeiros. Disfarcei um risinho bobo ao desviar seus olhares.
- Ei, vamos para o salão de jogos? – Layla resolveu se manifestar. - Eu não agüento mais esses “Maricas” ou seja lá qual for o nome mexicano deles.
- Mariachis, Layla... Como fomos esquecer a sala de jogos? – Disse sarcasticamente.
- Aqui é muito certinho, temos que bombar amanhã! – Ela se levantou da mesa com ar animado.
- Sim, sim. – Respondi, com a visão bem tonta ao levantar.
- Temos que conhecer o lado podre do México; - Ela começou
- Provar todas as bebidas; - Completei
- E, mais importante, provar todos os mexicanos! – Layla mostrou seu lado tarado. E desandamos a falar até chegar à tão aguardada sala.
Aparentemente todos os hóspedes do hotel preferiram os Mariachis, uma festa ou Luta Livre, pois a sala estava abandonada. Acendemos as luzes e entramos pela porta de madeira que fez barulho típico de casa mal assombrada. Era um pequeno recinto, com uma mesa de sinuca, uma maquina de bebidas e um jukebox no canto. Além disso, havia algumas mesas para jogos tipo poker, damas, dominó, jogos de baralho em geral.
- Uau, adoro esses lugares. – Fiz o reconhecimento do local.
- Sim, é perfeito. – Ela sorriu, partindo em direção da máquina de cervejas.
- O que vamos jogar? – Perguntei, passando por ela e seguindo até o Jukebox.
Layla atirou uma garrafa de uma cerveja mexicana para mim, dizendo:
- Sinuca?
- Ok. Ah, olha essa música! – Apertei o ‘play’ e a poderosa voz de Dean Martin invadiu a pequena sala, com ‘That’s Amore’.
- Ah, eu amo! Sempre me imaginei num restaurante, dançando com um chef de cozinha. – A sonhadora disse. Eu ri e completei:
- Temos um chef a nossa disposição lá no restaurante, se você quiser...
- Não, o do meu sonho é mais “guapo”.
Parecíamos dois homens bebendo cervejas e jogando sinuca na madrugada de uma noite linda na Cidade do México. Acabei esquecendo os olhos lindos do quarentão que eu havia visto. A cada gole, a realidade ia ficando pra trás. Não me lembro se sonhei certos fatos ou se realmente aconteceram.
- Sabe o que eu sempre quis fazer numa mesa de sinuca, Lah?
- O que?
- Sexo. – Eu ri. – Sério, mas nunca tive a oportunidade.
- Eu te ajudaria se pudesse... – Ela disse sarcasticamente entre goles.
- Engraçada, Layla. – Taquei acertando a bola branca na de cor verde que entrou no buraco.
- Yeah! – Comemorei. Lah fez pouco caso:
- Você tem um cigarro?
- Tenho.
- Aqui, ó. – Estiquei o braço com um cigarro na mão.
- Valeu, Ali. Agora você verá a bola preta dizer tchau. – Ela disse com pose de jogadora profissional, com o taco em pé ao lado de seu corpo.
- Tá bom, Lah. Veremos. – Digo, acendendo um cigarro enquanto espero sua tacada.
A porta rangeu antes que Layla pudesse se posicionar para jogar, parecia que teríamos companhia. Rapidamente, ajeitamos os cabelos, pousamos as garrafas na mesa e apagamos os cigarros. Entreolhamo-nos, como sempre. Ao abrir a porta, adivinhe? Os olhos mais perfeitos da face da Terra entraram. Eu não via nada alem daqueles faróis levitando em minha frente. Não escondi o sorriso.
- Boa noite, meninas. – A voz do coroa, num inglês bonito e não identificável ecoou na saleta.
- Boa noite. - Respondemos em coro.
- Podemos nos juntar a vocês no jogo? – Desta vez foi o rapaz quem deu o ar de sua graça, numa voz grossa e atraente.
- Claro. – Eu disse sorrindo, sem desviar dos olhos que me hipnotizavam.
- Meu nome é Russel, prazer. – O jovem-de-cabelos-dourados-e-de-olhar-sexy disse, estendendo a mão especialmente para Layla.
- Layla. – Ela o cumprimentou de forma doce, até onde a bebida a deixava ser tímida.
- John, mas todos me chamam de Gibson. – O quarentão virou-se para mim enquanto o rapaz pegava bebidas na tal máquina.
Agora a música era ‘Volare’ e digamos que a sala ficou mais interessante com a presença dos dois. Passamos a jogar e beber juntos, os quatro, como dois casais numa viagem informal. Para acertar a bola, o Sr. Gibson passou por mim, com um olhar pouco discreto. Ele tinha um bigode e cavanhaque, que me lembrou o Capitão Jack Sparrow. Além disso, cheirava como imaginamos que aqueles homens de comercial de perfume cheiram, divinamente bem.
Quando percebi, já estava rindo das conversas de Gibson e havia me esquecido da presença de Layla e Russel naquele lugar.
- Somos das Bahamas. Trabalhamos juntos no ramo de turismo. E vocês?
- Brasileiras.
- Que ventos as trouxeram para o México?
Poderíamos dizer “uma sede de loucuras, de intensidade para a vida”. Porém, nos contivemos em:
- Férias.
Naquele misto de jogatina, músicas que nos deixam com vontade de sacar um europeu ou um bahamense gato no bolso e dançar junto a seu corpo até o amanhecer, acabei deixando-me levar pelas circunstancias. John já havia virado um pirata em meus sonhos e a razão pela qual aquela pequena sala balançava a meu ver, eram as ondas do mar naquele navio onde aparentemente éramos a tripulação. Layla e Russel já estavam bem entrosados. Eu percebi o tapa-olho em um dos olhos do belo rapaz e o vestido velho de minha amiga, como o de uma rapariga viajante. Decidi então que eu deveria me jogar em cima de Gibson, pois eu sempre quis ter um affair pirata. E é até esse momento que tenho plena consciência dos fatos como realmente foram.

3 - Times like these


I, I am a new day rising
I'm a brand new sky
To hang the stars upon tonight
I, I´m a little divided
Do I stay or run away
And leave it all behind?



 
- Eu preciso comprar chicletes – anunciei assim que fizemos o check-in.
- Ah, Layla, nós vamos embarcar em 5 minutos, a loja é meio distante – Alice reclama.
- Mas se eu não comprar eu vou ficar com dor de ouvido – digo fazendo biquinho.
- Ta, tudo bem, mas se a gente perder o vôo a culpa vai ser sua - ela fala mal humorada.
- Ai que chatinha, meu Deus. Parece que eu to te levando pra forca, não pro México – reclamo.
- Na verdade você está me levando pra loja de conveniências – ela responde, me fazendo bufar.
- Vai se foder, Ali – digo antes de entrar na loja já em direção aos chicletes.
Num processo bem rápido pago e vamos em direção ao portão de embarque onde todos os outros passageiros estão entrando. Quando entramos no avião a Ali vai direto para a janela, reviro os olhos evitando uma nova “briga”, porque ela sabe que eu amo ir na janela então se eu fosse reclamar nós íamos discutir até uma aeromoça ter que pedir pra nos sentarmos, então preferi deixar pra lá.
- Você não acha que as aeromoças se vestem super bem? Eu sempre me perguntei quem desenha as roupas delas – digo, numa tentativa de puxar assunto.
- Ai meu Deus, Lah. Será que dá pra você esquecer o trabalho ao menos cinco segundos – ela diz folheando a revista do avião.
- Mas não é trabalho, eu realmente sempre fui curiosa quanto a isso, elas são tão bonitas, eu queria ser aeromoça – insisto.
- Você está falando demais – ela responde chatamente.
- E daí? – provoco.
- E daí que você só faz isso quando ta nervosa – ela conclui.
- Eu não estou nervosa – digo cruzando os braços.
- É? Não é o que parece, está me parecendo todas as vezes em que nós viajamos de avião e você fica falando milhares de bobagens pra se distrair da decolagem – ela termina.
- Eu não estou falando bobagens. Vai dizer que você nunca quis ser aeromoça? – desvio o assunto.
- Tudo bem, eu já quis, mas isso não vem ao caso – ela responde.
Depois de toda a baboseira de vídeo de segurança (que eu já sabia decorado as falas), nós finalmente decolamos, deixando pra trás a cidade e seguindo em direção as nossas
“férias”. Resolvi ignorar a mal humorada e fazer uma palavra cruzada que eu tinha achado dentro da minha bolsa e ela logo começou a rir.
- Quê? – perguntei.
- Às vezes eu me pergunto quantas coisas dessa você faz – ela diz, apontando pra revistinha na minha mão.
- Sei lá, eu acho legal, fora que você aprende um monte de palavras legais – rebato.
- Você é uma figura, sabia? – ela continua rindo.
- Eu sei que você me ama – provoco.
- Convencida – ela rebate.
- Chata – falo, mostrando a língua para ela o que acaba nos fazendo rir.
- Sabe o que eu estava pensando? – pergunto depois de algum tempo de viagem.
- Se existe algum cara realmente gato no México? – ela pergunta, arqueando as sobrancelhas.
- Não sua tarada. Eu estava pensando em fazermos um diário de bordo – falo, animada.
- Mas eu não trouxe nada em quê escrever – ela fala, como se estivesse analisando a minha proposta.
- Aí é que entra a minha idéia, eu pensei em postarmos nossas aventuras em um blog – digo feliz.
- Seria legal, já pensou se nós viramos famosas, tipo a Camila daquele livro – ela fala sonhadoramente.
- Bom, não pensei na questão da fama, mas seria legal ter algo pra lembrar exatamente de tudo que vivemos, né? – comento.
Ficou evidente a nossa animação e foi assim que tudo começou. Quer dizer, depois daquela parte de brigas e resolver viajar. Quando finalmente pisamos em solo mexicano eu já estava ficando louca de tanto tempo dentro de um avião, não via hora pegar a minha mala e ir locar um carro pra ir logo pro hotel.
Deixei que a Ali resolvesse as coisas do carro já que ela sempre foi melhor em espanhol que eu. Antes de sairmos aproveitei a internet do aeroporto pra pegar os mapas da cidade e saber como chegar no nosso hotel e depois de ter guardado as malas nós partimos pra a primeira “aventura”.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

2 - Be Somebody

Given a chance, I'm gonna be somebody If for one dance, I'm gonna be somebody Open the door, it's gonna make you love me Facing the floor, I'm gonna be somebody


Enquanto dirigia até nossa casa, pensava naquilo tudo. Seria loucura mesmo sumir do mapa daquele jeito? Bom, piorar não podia. Às vezes bate uma súbita responsabilidade, que some quase instantaneamente. Olho para minha vida e percebo que realmente precisamos evaporar por uns tempos: esquecer amores, familiares enchedores de saco, o fracasso no trabalho... Quando me projetava aos 22, era tudo glamour, uma mulher bem sucedida, com um namorado fixo, reuniões de família aos domingos e festas intermináveis às segundas. No entanto, depois de escrever, atuar e editar um filme sobre como definir todos os tipos de amor que sentimos, minha carreira não decolou. O Math, amigo quem dirigiu meu roteiro, me abandonou e está morando em Nova York, “tudo pelo cinema”, como ele diria.
‘Kings of Leon’ no rádio, essas músicas me deixam depressiva. Essa cidade está um inferno de tão quente. O transito, um caos. Meu cabelo, uma palha. Meus cigarros, acabando. – Tenho que parar. Dizem que quando chegar aos 30, fumando desse jeito, minha pele estará como a de uma coroa de 50.
Se eu tivesse vindo a pé, tudo estaria bem. Layla é a culpada, por que insistiu que eu ficasse com seu carro até hoje de manha, pois ela não estava “tecnicamente bem para dirigir”. Ai, Layla... Passamos o dia de ontem inteiro planejando a viagem e minha amiga decidiu que ficaria bêbada, sem motivos, “só para desopilar”. Pior! Ela me levou junto e como eu não sei ver defunto sem chorar... Deu no que deu. De madrugada, quando minha consciência “apitou”, deixei-a em casa e segui para a de minha mãe – desobedecendo a lei seca, eu sei. Já que ia sumir por uns tempos, sem dar noticias, devia fazer uma média com meus pais.

Apesar das loucuras – são tantas! – nós nos entendemos de verdade. Diriam até que somos irmãs, de tão parecidamente chatas.
Ela mexe com moda. Trabalhava na redação de uma revista, por algum motivo, saiu de lá. Quando tinha 17, sonhava em ser uma Miranda Priestly, editora de revistas que só vêem cara, esquecendo-se do coração, mas não deu certo.
Faltava atravessar duas ruas até a casa dela, quando meu celular tocou:
- Alô. – disse sem entusiasmo.
- Minha filha, cadê você? – Era Layla.
- Tô indo, tô indo... Você sabe como eu odeio o transito de sábado de manhã; bando de farofeiro indo pra praia. – Digo mal humorada.
- Manhã, Alice? São 2 da tarde!
- Eu fui dormir tarde, chatinha. Se eu me lembro bem, você também...
- É... – Ela mudou de assunto - Bom, está tudo pronto. Só falta você.
-Ok. Te vejo em 10 minutos. – Com o silêncio do outro lado da linha, percebi que ela sorria. Ri também.
- Tá, beijo.
Encontrei com ela já na portaria, com nossas malas a postos. Layla, com um belo chapéu branco, a lá Carrie Bradshaw em dias de férias com as amigas, parecia uma turista chique. Eu ri, porém Lah não percebeu, tamanha era sua ansiedade. Veio correndo em minha direção, quando estacionei o pequeno carro na calçada em frente ao prédio:
- Ali! Vamos, vamos! – Ela abriu um sorriso do tamanho do mundo, quando enfiou a cabeça pela janela do carro. Nunca tinha visto Lah tão empolgada. Um ventinho tímido, depois de o calor ter quase me matado naquele engarrafamento, surgiu. Parecia uma mensagem subliminar: as coisas melhorariam.
- Oi, Lah. Ou eu deveria dizer Carrie? – Perguntei sarcasticamente.
- Não entendi... – Ela botou as mãos na cabeça, segurando o chapéu, impedindo que o vento o levasse voando.
- Você esta “fantasiada” de Carrie Bradshaw ou é impressão minha? – Caí na gargalhada.
- Ai, sua chata! – Ela se emburrou. Sempre que eu fazia piadinhas sobre seu estilo, era motivo para magoas.
- Oh, é palhaçada, né, Layla, você está linda, como sempre, Miranda. – Saí do carro. Ainda de braços cruzados, ela olhou meu figurino e não se segurou:
- Melhor ser a Carrie que ser metida a roqueira... – Rimos juntas, a magoa tinha passado.
Pegamos um taxi, com direção ao aeroporto. Não sei por que sempre acabávamos atrasadas para tudo!
- Sei que eu não devia dizer isso, mas você ta me lembrando a Audrey, na época de “Bonequinha...”. – Ri, sabia que ela iria ficar convencida com esse comentário.
- Apenas Audrey, né? – Amo o “apenas” de Layla.
- Sim, “apenas”. – Sorri - Até que suas aulas deram resultado...
- E você... Essa blusa do Motley Crue, meu deus, Alice, ela vai criar asas de tanto que você a usa! Além disso, está toda surrada. – Ela ignorou meu comentário.
- Ah, não começa... Foi presente do Pedro, você sabe, ele foi...
-“Meu amigo-namorado, roqueiro e super cool, bla bla bla” – Layla me interrompeu, fazendo uma voz mais fina que a sua normal.
- Eu amo essa blusa, tem significado pra mim. Talvez tanto quanto essa tatuagem aqui. – Mostrei o desenho em eu braço.
- Eu sei. – Ela me abraçou – Mas você definitivamente precisa de uma estilista: EU! – Gargalhei junto a ela.
- Ah, talvez, Lah, mas não que eu precisasse de belas roupas na hora de seduzir os homens. Se é que você me entende... – Pisquei um dos olhos. Rimos juntas até chegar ao aeroporto. Vi pelo espelho que o taxista ria de nós. É, todos sempre riem de nós.

1- Born to be wild


Like a true nature's child 
we were born
born to be wild 
we can climb so high 
I never wanna die 
born to be wild
born to be wild 


Bom, digamos que foi assim que começou a nossa viagem.
- Lah, eu vou me matar, cara – Alice anunciou enquanto almoçávamos no nosso apartamento.
- É algum motivo bom, pelo menos? – debochei, afinal sabia que vinha alguma besteira por aí.
- Não, eu to falando sério, eu não entendo as pessoas – ela fala, suspirando profundamente.
- Bom, eu já sabia que você não entendia, eu já tentei te explicar que aquela velha maluca do 401 não acha nem um pouco legal quando você grita comigo na escada, mas parece que você ainda não entendeu isso...
- Layla, pelo amor de Deus, foco na conversa – ela fala mal humorada. – Eu estou falando sério aqui.
- Certo, estou esperando a explicação lógica pra você querer se matar.
- Tudo bem, eis a questão, eu não agüento mais todo mundo achando que ta rolando algo entre o Bruno e eu – ela responde finalmente.
- E não ta?
- LAYLA!
- Ta parei – respondo rindo, fazendo-a rir também.
- Sabe o que me deixa mais chateada?
- Não, não sei – digo irônica.
- Todo mundo ficar esperando que eu faça algo como eles esperam, mas e se eu não quiser fazer? Poxa, não é só porque eu gosto de sair com um cara que eu tenho que ter segundas intenções, né? – ela fala chateada.
- Eu sei, mas não é sempre assim, todo mundo sempre espera que nós sejamos um produto sob medida – respondo, sendo séria pela primeira vez desde que a conversa começou.
- As coisas ainda estão na mesma com o Lucas? – ela pergunta, percebendo minha desanimação.
- Claro, nada muda com ele, as vezes eu acho que ele espera que eu desista dos meus sonhos pra ser a esposa ideal – respondo.
- Mas você não é assim, Lah, aliás, nós não somos assim. Sabe o que nós precisamos? De férias! – ela diz animada.
- Verdade, nem lembro a ultima vez que nós viajamos juntas – confesso, me animando.
- Eu não estou brincando, nós precisamos dá o fora dessa cidade por uns tempos, quem sabe assim todos vão ver que nós somos diferentes.
Eu a conhecia bem o suficiente pra saber que ela já estava fazendo os planos na cabeça, procurando o lugar mais louco pra começar.
- Eu só preciso arrumar minha mala e tirar dinheiro – declaro.
- Então, fechado? – ela fala estendendo a mão, exibindo uma tatuagem de raio no braço.
- Fechado – aperto sua mão e rimos, felizes.
Talvez o maior motivo da Alice e eu sermos amigas era porque nós duas éramos loucas. Ninguém nunca conseguia nos acompanhar quando resolvíamos aprontar, por isso, dois dias depois da nossa conversa no almoço eu estava com as malas prontas. Depois da conversa nada amigável que eu tinha tido com o Lucas, eu estava mais do que decidida que embarcar nessa viagem com a Lice era a melhor coisa que eu podia fazer.
Eu costumava dizer a Alice que não podia dizer que tinha encontrado o amor da minha vida sem ter percorrido o mundo, como eu poderia saber se ele não estava me esperando em um café na França? Ou pescando na Grécia? Definitivamente o amor da minha vida não era um advogado arrogante que queria criar raiz nessa cidade.
Chega de falar sobre amor, não estou embarcando em uma busca por um cara, estou embarcando em busca de muitos caras. Era assim que eram as nossas loucuras. Beber, seduzir e acordar com ressaca e rindo no outro dia e claro, nunca contar todos os fatos, porque eles sempre ficam bem guardados entre nós, quer dizer, até essa viagem.
- Que cara é essa? Não vai me dizer que desistiu – Alice perguntou quando entrou no meu quarto.
- Não, só estou pensando na nossa viagem – digo exibindo um sorriso, convencendo-a.
- Já decidi por onde vamos começar – ela anuncia e só então percebo umas páginas do Google maps impressas.
- Conta logo! – digo empolgada.
- MÉ-XI-CO – ela anuncia jogando as folhas na cama.
- Já vamos começar assim? Não quero nem ver como isso vai terminar – anuncio fazendo-a rir.
O México sempre foi o país em que nós planejamos nossas maiores loucuras e um dos poucos que nós não conseguimos ir. Na sala do nosso apartamento havia um grande mapa mundial onde nós marcávamos com tachinhas os lugares que já tínhamos ido, os meus com tachinhas laranja e os dela com tachinhas roxas formando um colorido legal no mapa.
- Então, como foi com o Lucas? – ela perguntou sentando ao meu lado.
- Não foi, acho que agora é definitivo – respondi calmamente, mas pelo canto do olho eu sabia que ela analisava a minha reação.
- Sabe, eu nunca achei que você fosse ficar com um cara tão careta por tanto tempo, quer dizer, você nasceu pra namorar um barmen gostoso, tipo aquele seu caso em Londres, lembra? – um sorriso surge no meu rosto nessa hora.
- Claro que eu lembro, tudo começou porque a gente não podia beber naquela época e eu tive que dar em cima dele pra gente poder aprontar, ele até te apresentou o amigo cantor dele – respondo e nós rimos juntas.
- Nós temos uns “quês” de Holly G. ... – ela anuncia, sabendo que eu continuaria e foi isso que eu fiz.
-... E precisamos de um James Dean por perto – completo rindo.
- Nosso mochilão foi fantástico, a gente devia voltar lá – ela diz sonhadoramente.
- Foi mesmo, acho que foram os melhores meses da minha vida – acrescento.
- Das nossas vidas! – ela completou.